Rodrigo Amaral

Pragmatic Thinking and Learning

Em tempos de mundo interconectado e informação instantânea, uma das habilidades mais valorizadas entre profissionais de diversas áreas é a capacidade de aprendizado. Sendo assim, "aprender a aprender" deveria ser um dos primeiros objetivos de qualquer pessoa que deseja desempenho pleno, seja em sua profissão, seja em seus projetos pessoais.

Pensando nisso, Andy Hunt reuniu em Pragmatic Thinking and Learning um conjunto de práticas e técnicas para refatorar nosso wetware, analogia usada pelo autor para aproximar os processos do pensamento humano de um modelo computacional.

O objetivo do livro é mostrar como fazer a transição do modo de pensar de um novato para o modo de pensar de um expert. O texto é basicamente voltado para desenvolvedores de software, mas as técnicas apresentadas são úteis para qualquer ramo de atuação. Nada mais natural, já que todos temos um cérebro que pode ter seu desempenho melhorado por meio de alguma "malhação" e meia dúzia de novos hábitos.

O caminho entre o novato e o expert

O autor cita o Modelo Dreyfus de aquisição de conhecimento para definir o mapa que deve ser trilhado para nos tornarmos experts em nossas respectivas áreas de atuação. Para chegar lá, é preciso percorrer um espectro que vai da necessidade de obediência quase cega a regras e receitas pré-definidas, em um extremo, até um modo de pensar que é fundamentalmente calcado na intuição, no outro. Além disso, a proficiência também pode ser medida em termos da capacidade de contextualizar informações e tomar decisões de acordo com cenários específicos. Nesse processo, é fundamental que o aprendizado aconteça por meio de observação e imitação, como fazem tão bem as crianças ao tomar como modelo o comportamento das pessoas que as cercam.

Conhecer seu cérebro

A comparação comum entre o cérebro humano e um computador é sedutora, mas não passa de uma metáfora. Não somos programáveis e sequer conseguimos executar a mesma ação da mesma maneira mais de uma vez. Ainda assim, para fins didáticos é conveniente imaginar o cérebro como uma CPU de núcleo duplo. Um dos núcleos por ser equiparado a uma máquina de Von Neumann, responsável pelo pensamento linear, pela lógica e pelo processamento da linguagem. O outro é mais parecido com um processador digital de sinais, responsável por busca e reconhecimento de padrões, ainda que não diretamente relacionados entre si. O primeiro é chamado de modo-L (modo linear) e o segundo de modo-R (modo "rico").

Em linhas gerais, podemos dizer que o modo-R cuida da intuição e criatividade necessárias para resolver os problemas, enquanto que o modo-L é responsável por cuidar dos detalhes para materializar a solução. Como o modo-R é imprevisível e difícil de ser domado, é importante contar com alguma ajuda para capturar inspiração e ideias assim que elas surgem. Caderno-e-caneta, dispositivos portáteis ou cartões de anotações servem como uma espécie de armazenamento auxiliar de memória para essas ocasiões.

Recrutar o lado direito

Existem algumas técnicas que podem ser utilizadas para ajudar a conseguir mais "potência" mental. Essas técnicas envolvem o estímulo ao lado direito do cérebro (modo-R, o da intuição e criatividade) para que seja possível contar com sua ajuda para trabalhar em conjunto com o lado direito. Uma dessas técnicas consiste em tentar representar determinada ideia ou conceito usando mais sentidos que o usual. Além de descrever verbalmente a ideia, podemos tentar representá-la em forma de desenho ou através de algum modelo manipulável, tal como peças de Lego, por exemplo.

Outro recurso útil para engajar o modo-R é exercitar a criação de metáforas para facilitar a representação de conceitos abstratos ou de de difícil compreensão. Boas metáforas são valiosas e conseguir criá-las é um importante passo para a resolução de problemas complexos. Uma ferramenta para ajudar na criação de boas metáforas é cultivar o humor: pensar em trocadilhos e piadas que envolvam palavras com mais de um significado estimula o surgimento de metáforas em potencial.

Depurar a mente

Embora usar nossa intuição seja algo fantástico, às vezes ela pode nos enganar. Esses bugsno nosso modo de pensar são conhecidos como vieses cognitivos e nos fazem, muitas vezes, deixar a imparcialidade de lado ao tomar decisões. A lista de vieses cognitivos é extensa, mas vale a pena conhecer algumas se quisermos aperfeiçoar nossa capacidade de fazer escolhas de maneira clara. Outro aspecto que merece atenção é a afinidade que temos com as características comuns à nossa geração e como esses valores podem ser conflitantes ao lidar com pessoas de gerações diferentes.

Aprender deliberadamente

Nos dias de hoje, podemos considerar que nossa habilidade de aprender é um dos fatores mais importantes para determinar se nossas ações e projetos têm chance de sucesso. Neste capítulo, o autor sugere a criação de um "plano de investimentos" em aprendizado, que funcionaria de forma similar a um plano de investimentos financeiros. O plano consiste em objetivos e metas que devem ser atingidos de forma que se possa perceber seu progresso. Para tanto, podemos fazer uso de técnicas de aprendizagem que envolvem uma maneira mais efetiva de ler material escrito, sumarizar e relacionar conhecimentos e aprender ensinando.

Ganhar experiência

A experiência é o pavimento do caminho entre o iniciante e o expert em qualquer atividade. No processo de conquistar experiência, é inevitável cometer erros. Por isso, é importante incluir a falha como um elemento comum ao aprendizado. Para que isso seja possível, precisamos criar um ambiente em que possamos explorar e experimentar com liberdade e no qual tenhamos como receber feedback sobre nossos erros.

Gerenciar a concentração

A enxurrada de informações a que somos submetidos diariamente vem criando uma dificuldade inédita: não somos mais capazes de nos concentrar adequadamente ao realizar grande parte de nossas atividades. Nossa mente vive acelerada e em constante mudança de foco. Uma das técnicas sugeridas pelo autor para reduzir nosso "burburinho mental" é cultivar o hábito da meditação, cujos benefícios são comprovadamente eficazes. Além disso, também é necessário preparar nosso ambiente de trabalho de modo a evitar distrações e otimizar o contexto da atividade que estivermos realizando.

Conclusão

Pragmatic Thinking and Learning é uma daquelas obras que tem a capacidade de mudar a maneira como percebemos o mundo. Aliás, essa é uma das características das coisas que nos fazem ganhar experiência: se nada mudou em sua cabeça depois de terminar um livro, um filme, uma música ou qualquer outra atividade (um emprego, por exemplo), não dá para contar como experiência de fato. De forma simples, empolgante e bem-humorada, Andy Hunt ensina como abrir caminho para explorarmos todo nosso potencial de pensar, aprender e aplicar os resultados, germinando as sementes para a inovação e a excelência. Livro recomendadíssimo para comprar e manter por perto.